Ubá: Moradores do Xangrilá realizam manifestação pacífica contra proposta de construção de 500 casas populares

Ubá: Moradores do Xangrilá realizam manifestação pacífica contra proposta de construção de 500 casas populares

Na manhã do último sábado, 10 de janeiro, a Pracinha do bairro Xangrilá, em Ubá, foi palco de uma manifestação pacífica organizada por moradores que se dizem preocupados com a proposta de construção de 500 casas populares na região. O ato reuniu comunidade, lideranças políticas, empresários e parte da imprensa local, reforçando que a mobilização tem caráter coletivo e busca, acima de tudo, diálogo, transparência e planejamento.

A principal reivindicação dos moradores é que o bairro não possui infraestrutura para receber um empreendimento capaz de atrair mais de 2 mil novos moradores, o que, segundo eles, pode gerar impactos diretos em áreas essenciais como mobilidade urbana, saneamento, saúde, educação e qualidade de vida.

“Não é preconceito. É falta de estrutura”, afirma morador e empresário

Entre as falas que marcaram a manifestação, o morador e empresário Adilson destacou o tempo de vínculo com o bairro e a preocupação com o meio ambiente e o trânsito na região. Em pronunciamento contundente, ele afirmou que o projeto, da forma como estaria sendo conduzido, seria um “tiro no pé” da administração pública e “um escárnio” com a comunidade.

Adilson recordou que a área verde do bairro, segundo ele, foi duramente atingida por uma queimada em 1997 e que a própria população trabalhou para recuperar a mata ao longo de mais de 30 anos. Para ele, o bairro já convive com fluxo intenso de veículos, principalmente em horários de pico, e a chegada de centenas de moradias ampliaria ainda mais um cenário que considera “inviável”.

Ainda em sua fala, ele reforçou que a comunidade não é contra moradia popular, mas defende que o município avalie alternativas em outras regiões da cidade, citando áreas como Miragaia e Ubarí, que poderiam, em sua visão, comportar melhor um empreendimento desse porte. “Nós vamos avançar, não vamos desistir, não vamos recuar”, afirmou.

Pedido de transparência e consulta popular

O advogado e morador Anderson reforçou a necessidade de clareza e respeito por parte do poder público. Segundo ele, projetos dessa magnitude precisam começar com consulta popular e participação direta da comunidade, e não com decisões tomadas sem diálogo.

Ele também citou problemas práticos do cotidiano do bairro como exemplo da falta de estrutura e atenção do município, afirmando que, recentemente, moradores tiveram que improvisar soluções para um problema de via pública. Anderson destacou que o bairro não suporta, hoje, um aumento tão grande de população sem planejamento prévio e defendeu que a audiência pública aconteça “o mais rápido possível”.

Vereadores e lideranças apoiam a mobilização

Durante o ato, vereadores e lideranças políticas também estiveram presentes e manifestaram apoio aos moradores, reforçando que o debate não deve ser tratado como discriminação, mas como uma discussão sobre localização, critérios legais e impactos estruturais e ambientais.

O vereador André Alves afirmou que o Legislativo vem atuando nos bastidores e relatou preocupação com a falta de envolvimento de instâncias consultivas, como o Conselho de Habitação do Município, que, segundo ele, teria tomado conhecimento do empreendimento apenas recentemente. André também mencionou questionamentos feitos à Caixa Econômica Federal, apontando a necessidade de procedimentos como impacto de vizinhança e medidas legais que, em sua avaliação, deveriam passar pela Câmara antes de qualquer avanço.

O suplente de vereador Cristiano Shrek também se posicionou, defendendo que, se há investimento público em outras regiões, haveria possibilidade de destinar o conjunto habitacional para áreas com estrutura já existente, como escolas e unidades de saúde.

O vereador José Roberto Filgueiras destacou que a transparência é um dos principais princípios da administração pública e defendeu diálogo aberto com os moradores. Ele também chamou atenção para a necessidade de preservar a área verde, pontuando que o benefício ambiental não seria apenas para o Xangrilá, mas para toda a cidade.

O vereador Gilson Pica-Pau destacou que o debate precisa ser feito dentro das normas legais, citando a ausência de impacto de vizinhança e a necessidade de discussão sobre o Plano Diretor e infraestrutura. Ele também mencionou preocupação ambiental, alegando que havia árvores marcadas para retirada, e orientou moradores a acionarem vereadores caso máquinas entrem na área.

Já a vereadora Soninha afirmou estar ao lado da população, disse que o assunto chegou ao conhecimento por meio de informações divulgadas após uma reunião na Câmara e reforçou que, se depender de seu voto, será contra o empreendimento no Xangrilá — deixando claro que não é contra casas populares, mas contra o local escolhido, defendendo que há outros bairros com melhores condições.

FEMAC defende audiência pública, estudos técnicos e organização popular

O secretário/diretor da FEMAC, Mário Ângelo Noé, declarou solidariedade ao movimento, afirmando que a mobilização é “justa e necessária”. Ele reforçou que não se trata de ser contra moradia popular, mas de garantir que qualquer projeto seja discutido com a população, passe por critérios técnicos, tenha estudos de impacto ambiental e avaliação da infraestrutura do bairro.

Mário Ângelo também defendeu que o município avalie a possibilidade de distribuir as moradias em diferentes bairros, em vez de concentrar um grande número de casas em um único local. Além disso, incentivou a fortalecer e reorganizar a associação de moradores, ressaltando a importância de representatividade oficial para dialogar com o poder público.

Mônica Valloni destaca participação popular e cobrança por responsabilidade

Presente na manifestação, a ex-candidata a prefeita Mônica Valloni ressaltou que ninguém ali se posicionava contra a moradia popular e reconheceu que Ubá precisa de muito mais que 500 unidades habitacionais. No entanto, chamou atenção para a forma como o tema chegou ao conhecimento da população.

Em sua fala, Mônica destacou a falta de transparência como ponto central do conflito e reforçou que decisões desse tipo devem ser tomadas com participação da comunidade interessada. Ela citou a necessidade de adequações no Plano Diretor, a realização de estudos de impacto ambiental, e questionou como serão atendidas demandas como escola, saúde e transporte público, caso o projeto avance.

“Não é só trazer um projeto e jogar no colo de ninguém. Isso é falta de responsabilidade”, afirmou, defendendo que o poder público tenha compromisso tanto com quem já mora no bairro quanto com as famílias que necessitam das moradias.

Professor Wilderson critica falta de diálogo e lembra origem popular do bairro

O professor e morador Wilderson foi outro a reforçar que a mobilização não tem caráter discriminatório. Ele lembrou que o Xangrilá nasceu como bairro popular, com casas de metragem menor, e que muitos moradores atuais construíram sua história ali.

Para Wilderson, o problema está na ausência de diálogo e na condução do processo sem a comunidade. “Quando falta transparência, surgem dúvidas”, afirmou, listando questionamentos como avaliação de infraestrutura, análise ambiental e participação popular.

Além disso, citou dificuldades já existentes no bairro, como a falta de passeio para pedestres em ruas de acesso, o risco de acidentes e medidas paliativas que, segundo ele, não resolvem problemas estruturais. Em um dos trechos mais marcantes, comparou a situação a uma comunidade que se sente “apertada com uma mão e atingida com a outra”, ao cobrar postura mais respeitosa do poder público.

Rejaino Morais diz ter recebido recado para tranquilizar moradores

O presidente da Associação de Moradores do Xangrilá, Rejaino Morais, destacou o apoio recebido de diversos moradores de Ubá e afirmou que a preocupação principal envolve meio ambiente, enchentes e a falta de infraestrutura do bairro.

Rejaino relatou que procurou o prefeito Damato pessoalmente, mas que o gestor estaria em repouso por motivo de saúde. Ainda segundo ele, posteriormente teria recebido uma ligação em viva voz do prefeito e do secretário de Planejamento, Antônio Geraldo, com um recado para acalmar a população, sinalizando confiança de que o projeto não seguiria adiante.

Ele também mencionou a expectativa de uma reunião na Prefeitura na semana seguinte, com a possibilidade de levar representantes do bairro para dialogar diretamente com o Executivo.

Rogério Ferreira defende que área vire parque e critica falta de transparência

O ex-candidato a prefeito Rogério Ferreira parabenizou a mobilização dos moradores e afirmou não ter percebido preconceito contra o conjunto habitacional. Para ele, o foco do movimento é a falta de estrutura e a ausência de esclarecimentos.

Rogério criticou o fato de muitos moradores terem tomado conhecimento do projeto somente após comentários em reunião na Câmara e defendeu que a área verde poderia ser transformada em um parque, preservando nascente e árvores, além de oferecer benefício ambiental e de lazer para toda a cidade.

Manifestação pede diálogo, responsabilidade e planejamento

Mais do que um protesto, o ato no Xangrilá foi um pedido público de diálogo e uma demonstração de que a comunidade está atenta e organizada para defender o futuro do bairro. A mobilização também evidenciou um ponto comum nas falas: ninguém se colocou contra a moradia popular, mas sim contra a falta de transparência e a possibilidade de implantação do projeto sem planejamento prévio e sem infraestrutura adequada.

O Portal Zona da Mata News esteve presente na cobertura da manifestação e parabeniza os moradores pela mobilização pacífica e pela defesa do direito de serem ouvidos.

Xangrilá unido pela dignidade, pelo respeito e pelo direito de participar das decisões que impactam sua comunidade.