Mudança no Carnaval de Ubá gera reação e levanta debate sobre tradição, cultura e identidade popular

Mudança no Carnaval de Ubá gera reação e levanta debate sobre tradição, cultura e identidade popular

Ubá, cidade do interior de Minas Gerais reconhecida nacionalmente como terra de grandes nomes da música brasileira, como Ary Barroso e Nelson Ned, vive um momento de forte debate cultural às vésperas do Carnaval. A proposta de transferir o desfile de blocos carnavalescos tradicionais das ruas para um espaço fechado tem provocado reação imediata de blocos, artistas e da população em geral.

A discussão ganhou corpo após uma reunião realizada no Fórum Cultural de Ubá, onde representantes de blocos tradicionais manifestaram posicionamento contrário à mudança. Representantes do Bloco das Piranhas, Bloco Alvorada, Quem Fez, Fez e do Bloco da Ligação (O Que Eu Vim Fazer Aqui?). O Bloco Embocadura, também tradicional, ainda não se posicionou oficialmente.

Segundo a Prefeitura de Ubá e a Polícia Militar, a principal justificativa para a alteração do local do desfile é a preocupação com a segurança pública, diante de registros de aumento da violência na cidade. Essa afirmação desmente um vídeo postado pelo Vice-Prefeito, onde ele afirma que a violência diminuiu na gestão atual. A proposta prevê a realização das apresentações em um ambiente fechado, na Avenida Valoz David, com controle de acesso, o que, na avaliação do poder público, facilitaria a atuação das forças de segurança.

No entanto, para os representantes dos blocos e para grande parte da população, a mudança representa um rompimento com a tradição e um esvaziamento do caráter popular do Carnaval. Nas redes sociais, a reação tem sido majoritariamente negativa. Comentários, postagens e vídeos expressam insatisfação e críticas à decisão, apontando que o Carnaval de rua é uma das poucas manifestações culturais genuinamente acessíveis a toda a população, especialmente em uma cidade do interior.

Para os organizadores dos blocos, retirar o desfile das ruas significa limitar o acesso do povo, descaracterizar a festa e enfraquecer a identidade cultural construída ao longo de décadas. “O Carnaval sempre foi do povo, feito para o povo e nas ruas. Tirar isso é apagar parte da nossa história”, resume o sentimento predominante entre os representantes presentes na reunião.

Ubá carrega uma forte herança cultural e musical, e o Carnaval sempre foi uma extensão dessa identidade. Blocos tradicionais não apenas animam a cidade, mas movimentam a economia local, fortalecem laços comunitários e mantêm viva a memória coletiva. A mudança proposta, portanto, extrapola a logística do evento e toca em um ponto sensível: o direito à cultura popular e à ocupação dos espaços públicos.

O impasse segue aberto. Enquanto o poder público reforça o discurso da segurança, blocos e moradores defendem que o enfrentamento da violência não deve ocorrer às custas da descaracterização cultural. A expectativa agora é por novos diálogos e pela construção de uma solução que concilie segurança, tradição e participação popular, preservando o espírito do Carnaval que sempre fez parte da história de Ubá.